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"Ser médico não é suficiente para ser professor de Medicina" - Revista Ser Médico CREMESP

"Ser médico não é suficiente para ser professor de Medicina" por Aécio Gois*

O ensino médico no Brasil e no mundo passa por inúmeros desafios, sendo o mais importante a sua profissionalização. Ser médico não é suficiente para ser professor de Medicina. É fundamental que esse profissional aprenda a utilizar as novas informações sobre metodologias de ensino e avaliações. Apenas a aula expositiva e a avaliação cognitiva não são suficientes como recursos pedagógicos.

Os números são assustadores no Brasil. O País já é vice-campeão na quantidade de escolas médicas no mundo, superando a China e os Estados Unidos. Só perdemos para a Índia, que tem mais de 400 escolas médicas, mas com 1 bilhão de habitantes.

Temos 338 escolas médicas, com 35.078 vagas para alunos do primeiro ano. Apenas no Estado de São Paulo, são 65 escolas, com 7.616 vagas nesse período.

Um dos processos mais importantes a enfrentar é o de acreditação das escolas – para que elas façam uma autoavaliação e uma autorreflexão –, por meio de uma avaliação externa. A acreditação e os dados do Ministério da Educação e Cultura (MEC) possibilitarão um diagnóstico com proposições de qualidade. 

MODELOS

O ensino médico passou, nos últimos 100 anos, por três grandes modelos: 1) o flexneriano, no início do século 20, que dividia o ensino em três ciclos: básico, clínico e internato, ainda muito utilizado em nossas escolas tradicionais; 2) o PBL (Problem Based Learning), surgido no fim dos anos 60 na Universidade de McMaster, no Canadá, utilizado no Brasil a partir dos anos 90 e, ainda hoje, por inúmeras faculdades abertas nos últimos tempos; 3) o mais recente: o ensino baseado em competências, que utiliza diversas metodologias ativas, com um feedback contínuo do aluno durante sua trajetória na escola, sendo um grande desafio a ser implementado.

Acreditamos que um modelo híbrido – com predominância de metodologias ativas e algumas conferências, com professores e tutores conhecendo os métodos de avaliação tradicionais e novos, e fazendo o feedback contínuo, com simulação e aulas práticas com pacientes – seja o melhor.

A simulação é, cada vez mais, uma alternativa importante, principalmente para a segurança do paciente. Por exemplo, não há mais espaço para aprender a colher uma gasometria arterial em um paciente sem ter treinado, exaustivamente, na simulação. Para tanto, é preciso que as aulas ocorram em grupos pequenos, para que os professores possam acompanhar os alunos de perto e fazer uma devolutiva. 

Quanto à avaliação dos alunos, é necessário sair de um modelo exclusivamente cognitivo, que classifica-os (somativo), e adotar um formativo, utilizando modelos como o Objective Structured Clinical Examination (OSCE), Mini Ciex, ou Avaliação a 360 graus. Ela deve ser um momento rico de aprendizado.

As faculdades deveriam, ao admitir professores, exigir o conhecimento de metodologias de ensino e de avaliação. Não existe mais espaço para frases como “eu sempre dei aula assim, e o povo aprendia com minha aula expositiva de quatro horas com 200 slides, não vejo necessidade de mudar”.

A geração Z, à qual pertence nossos atuais alunos, já nasceu na era da tecnologia e se desconcentra muito facilmente. Por outro lado, possui capacidade de acesso a informações de forma extremamente rápida e quer fazer parte do processo de aprendizado. Uma de suas principais reclamações é “sair de casa para assistir um professor ler os seus slides por duas horas, os mesmos que ele não muda há mais de 10 anos, é realmente frustrante”. A tecnologia, portanto, pode ser um caminho de troca entre aluno e professor no processo de aprendizado. 

VÁRIOS DESAFIOS

Um dos desafios, talvez, seja utilizar cada vez mais a sala de aula invertida, em que o aluno estuda o material ou busca a informação em casa, recebendo o material previamente, inclusive os slides da aula, e, na escola, aproveita o tempo discutindo com o professor as experiências e as dúvidas. É importante fazer com que o aluno tenha mais vontade de participar das aulas e consiga adquirir as suas competências, em especial a comunicação.

Os alunos devem ter, também, vivências nos mais diversos níveis de atenção: primária, secundária e terciária. É preciso sair do modelo hospitalocêntrico, mas é importante que as escolas médicas que não têm hospital passem a tê-los, com a supervisão adequada dos alunos.

Conhecer mais os egressos para fazer mudanças apropriadas nos currículos é fundamental. É necessário tentar evitar o modelo de superespecialistas, e inserir o aluno, cada vez mais, na atenção primária e nos programas de saúde da família. A flexibilização do currículo e dos horários protegidos para o aluno poder estudar em casa ou na faculdade é outro grande desafio.

O ensino de urgência e emergência, além do transporte hospitalar, deve ser implementado, com supervisão adequada de emergencistas, pois, muitas vezes, esses dois cenários são os mais utilizados pelos egressos. Devemos ensinar conteúdos que façam parte do cotidiano do médico generalista.

São muitos os desafios a serem enfrentados, porém o processo de acreditação das escolas médicas e o processo de desenvolvimento de docentes são os principais deles. 

*Médico clínico geral, cardiologista, emergencista e intensivista, e coordenador da graduacão de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Edição 88 - Julho/Agosto/Setembro de 2019 (Páginas 34 e 35)

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