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Cadê o coelhinho?

Páscoa estimula criatividade e inocência das crianças 

Por Daniela Fenti
São José do Rio Preto, 7 de abril, 2012 – 1:45
Jornal Diário da Região – DiarioWeb

Hamilton Pavam
Ceci de Caprio com os filhos adotivos Micael e Bernardo: estímulo à fantasia em datas especiais

De olhos vermelhos, de pelo branquinho, de pulo bem leve... Por mais que os contos de fadas tenham se adaptado à realidade contemporânea, o Coelho da Páscoa é um dos poucos personagens tradicionais que resistem intactos no imaginário infantil. Às vésperas da celebração, Cristiane Bertucci Nicoleti, psicóloga especialista em gestalt-terapia, de Rio Preto, explica que o estímulo é saudável para o desenvolvimento cognitivo das crianças.

“A fantasia é sempre muito importante para que se desperte a criatividade. Isso vai ajudar nas atividades escolares, por exemplo”, diz ela. De acordo com o pediatra Marcelo Reibscheid, do Hospital São Luiz, de São Paulo, as fantasias também representam os primeiros passos da transformação dos desenhos e sonhos em realidade. “A partir dos 2 anos, as crianças começam a usar o simbolismo de forma mais intensa”, aponta.

Outro ponto positivo é que as histórias sobre o assunto são capazes de preservar a ingenuidade dos pequenos, mesmo em tempos em que as novas mídias despejam informações para todas as faixas etárias e acelereram o avanço de estágios. Se antes as crianças descobriam a farsa com cerca de 8 anos, hoje elas estão precoces e, com 4 ou 5, podem já não acreditar no coelhinho.

Segundo os especialistas, todas vão saber a verdade, mais cedo ou mais tarde, e isso não deve prejudicá-las. Mas quanto mais a aventura se mantiver viva, mais belas serão as lembranças da época. Não existem regras rígidas sobre o que fazer, pois cada pessoa tem seu próprio jeito de lidar com a Páscoa. A brincadeira convencional consiste em imprimir patinhas pela casa, com talco, pó de café ou outros produtos, como se o personagem tivesse deixado um rastro indicando onde os ovos teriam sido escondidos.

Para Armando Ribeiro das Neves Neto, psicólogo do Hospital Beneficência Portuguesa, de São Paulo, os pais precisam aprender a escutar e a observar mais o que os filhos esperam e imaginam dos rituais, transformando o momento em festa. “O ideal é não impor e sim convidá-los para participar de todo o processo, como pintar um coelhinho ou preparar um enfeite. As crianças têm mente aberta a novidades”, sugere.

Caso a condição financeira da família não permita adquirir ovos grandes e bonitos, como os exibidos em comerciais de TV, é preciso conversar com os filhos antes, para evitar possíveis frustrações. Cristiane ensina que é possível oferecer uma gama de ovos que se encaixam no orçamento doméstico e, dentre as opções, deixar os pequenos escolherem a que mais agrada.

“Muitas pessoas se preocupam em dar o melhor e mais caro chocolate, mas se esquecem da brincadeira. Desse modo, o coelhinho deixa de ter sentido pelos próprios adultos”, afirma a psicóloga. Neto acrescenta que as explicações devem ser adequadas à idade e à maturidade dos filhos. Se o herdeiro ainda não é capaz de compreender a falta de dinheiro, é possível construir uma história que valorize aquilo que se pode comprar. “Uma moeda de chocolate, que venha com amor sincero, pode substituir o ovo mais caro, sem afeto”, reforça.

Já a fatídica descoberta é um desafio que cabe exclusivamente aos meninos e às meninas. Ou seja, os pais não precisam dizer que o personagem não existe se não forem questionados por eles, e os irmãos mais velhos devem ser orientados a não estragar a crença.

Por outro lado, se a dúvida existe na cabeça infantil é sinal de que alguém já falou sobre a farsa. “É preciso deixar que cada um chegue às suas próprias conclusões, sem esconder a verdade. Os adultos podem fazer perguntas para a criança, como o que ela acha e por quê”, orienta Cristiane. Neto também diz que a frustração da notícia pode se transformar em oportunidade para que os pais avaliem a evolução dos rebentos. “Os menores precisam das fantasias para dar sentido ao mundo, os maiores aceitam a fantasia porque é divertida”, destaca.


Thomaz Vita Neto
A educadora Elaine Biazin com os pequenos Dante e Gabrielly: diversão e tradição

Encanto preservado

A educadora Elaine Del’Arco Biazim, 36 anos, nutre a fantasia da Páscoa com Dante, 3, e Gabrielly, 6, desde muito cedo. Ela garante que os filhos conhecem o verdadeiro sentido cristão da data comemorativa. “Explico a eles sobre a ressurreição de Jesus Cristo e comento que o coelhinho é o símbolo da vida.”

No primeiro ano de vida, eles ganharam um coelho de pelúcia, pois ainda não comiam chocolate. Agora, os pequenos colocam o bichinho debaixo da cama, na véspera da Páscoa, para esperar pelo doce. “Mesmo quando não estamos em casa, levo os coelhos para manter a tradição”, afirma Elaine. Na família da engenheira civil Ceci Kuncevicius Bueno de Caprio, 41 anos, a história é semelhante.

Micael, 7, foi adotado ainda bebê e aprendeu em casa e na escola a valorizar a brincadeira. O irmão, Bernardo, 8, chegou à família há cerca de dois anos. No começo, ele não acreditava nesse tipo de história, mas foi tocado pela dedicação da mãe. “Ele chegou à nossa casa perto do Natal. Quando recebeu o presente do Papai Noel, voltou a acreditar na existência dos personagens”, diz Ceci.

Ela costuma relembrar a própria infância, criando pegadas pela casa e escondendo os ovos pelo jardim. Quase sempre, o presente vem acompanhado de uma carinhosa cartinha. “Penso que é muito positivo fazer parte do universo dos meninos e mostrar a eles que o mundo é bom, que tem muitas coisas legais”, incentiva.

Micael já aprendeu que boas ações geram boas recompensas. “Se a gente obedece o papai e a mamãe, ganha ovo de Páscoa”. Bernardo, um pouco mais tímido, diz que ainda não sabe onde o coelho vai “botar” desta vez. “É legal procurar.” 

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